Eu devo ter duas fotos com menos de 1 ano de idade. Umas 6 com até 4 anos e mais umas 20 até os 16 anos. Todas fotos amareladas, quadradas, retro. Podem muito bem ser confundidas com fotos do Instagram, programinha popular do IPhone que simula fotos antigas e mostra para os amigos on-line, real-time.
São poucas porém valiosas. Quando eu tiver netos e talvez, esteja vivo para ver meus bisnetos (a tecnológica pelo menos promete tal feito), poderei mostrar como eu, um senhor de idade avançada, fui um dia uma criancinha gordinha no berço. Tudo isso graças a boa vontade de meu pai, que deve ter comprado uma câmera baratinha, filmes de 36 poses (30 devem ter “queimado”) e enviado para revelação no “Japonês da esquina”. Apesar da praticidade de se encaixar um rolo de filmes na máquina e enviar para revelação em um laboratório “popular” podemos imaginar que não era algo “prático” para uma família que nunca teve tradição de fotografar, além de existirem outras prioridades financeiras.
É isso que tenho e este é o diagnóstico daquilo que posso chamar de “registro oficial” da minha infância.
Hoje, balzaquiano, tenho milhares de fotografias armazenadas em discos rígidos, devidamente catalogados por data. O IPhoto ajuda a mapear os rostos dos amigos, até já conhece alguns. A câmera e o programa de edição ajuda a classificar as fotografias conforme meu desejo. Meu celular é automaticamente atualizado com as fotos do meu computador, porque sabe como é: posso querer mostrar para os colegas em uma reunião de trabalho. Muitas vezes é mais trabalhoso catalogar as informações de uma foto do que: fotografar.
A evolução em 30 anos é enorme, onde vamos parar?
Certamente meu filho não irá mostrar uma ou duas fotografias de quando recém-nascido mas sim uma ultrassonografia sua em terceira dimensão, num vídeo com imagem Full HD. Fotografias catalogadas e em alta resolução, filmes gravados pelo aparelho celular com uma qualidade equivalente as imagens de cinema irão mostrar o pimpolho brincando na fase inocente da vida. Irá pesquisar seu nome no Google para mostrar aos amigos quem ele é e quem ele foi. Já imaginou a mudança de conceito que isso irá ocasionar?
Se o homem procura pela eternidade este é o primeiro passo. Não tenho referencias claras de meus antepassados, como meu bisavô, tataravô, etc. Porém já tenho registros digitais para que, daqui a 150 anos e mais, meus herdeiros poderão saber exatamente quem eu fui e como eu fui, entender o momento da história em que eu estava inserido e minha visão particular da vida, meus gostos musicais, culturais, religiosos e sociais. Coisa de filme de ficção científica. Eu, pelo menos, tenho uma curiosidade enorme de saber destas referências passadas e certamente ajudaria a esclarecer muitas coisas.
Então aproveite que você está vivendo nesta fase da história e aproveite para puxar a fila. Ajude os que virão a saber quem você é, pelo menos faça este favor! Fotografe você e sua família, organize e guarde com carinho. Hoje não temos muitos álbuns de família para paginar, mas certamente teremos arquivos armazenados na nuvem para serem visualizados em slideshow numa televisão fina e de alta qualidade. Hoje os algoritmos são capazes de identificar seu rosto, amanhã serão capazes de identificar quem você é e de onde você veio, então será fácil visualizar em um piscar de olhos a arvore genealógica da sua família. Pensou?

























